Em 1706, Ramazzini foi convidado a também lecionar, como “professor visitante” na Universidade de Veneza, onde poderia ministrar seus cursos em qualquer época do ano. Aos 76 anos de idade, Ramazzini, embora em acelerado progresso de sua doença ateroesclerótica crônica que já o debilitava (sofrera um episódio agudo e grave, provavelmente um infarto do miocárdio, aos 69 anos) e o deixara quase cego (desde os 70 anos começou a notar sério dano de sua visão), continuava a aceitar novas e desafiantes tarefas, voltadas às mais distintas áreas da ciência e da literatura.
Não parou nunca de trabalhar, de aprender e de ensinar, tendo sido alcançado pela morte, da forma como certamente desejou morrer: na frente de seus alunos, discípulos e colegas, ao tentar vestir a beca para iniciar mais uma aula, desfaleceu, apoplético e já inconsciente, vindo a falecer no mesmo dia, a saber, 5 de novembro de 1714, portanto com a idade de 81 anos, um mês, e um dia ( Alguns autores , ao atribuir sua data de nascimento ao dia 05 de Novembro de 1633 ( e não 04 de Outubro, como a maioria o faz ), associam seu falecimento ao dia exato de 81o. aniversário ).. Foi enterrado numa das igrejas de Pádua, mas em túmulo anônimo.
A Atualidade de Sua Obra
Visto este breve resumo, talvez seja este o momento oportuno para evocar Georges Canguilhem, quando afirma que “a história de uma ciência não deveria ser uma mera coleção de biografias e ainda menos um quadro cronológico adornado de histórias. Tem de ser também uma história da formação, da deformação e da retificação dos conceitos científicos.” Assim, caberia perguntar, na parte final destas breves “notas biográficas” sobre Ramazzini, quais teriam sido suas principais contribuições para o desenvolvimento da Medicina e da Saúde voltadas para a promoção, a proteção e a recuperação da saúde dos trabalhadores?
Entre as muitas e interessantes contribuições, tentaremos identificar algumas que selecionamos para este breve intróito à sua obra, a propósito dos 300 anos da publicação de De Morbis Artificum Diatriba.
Em primeiro lugar, a preocupação e o compromisso com uma classe de pessoas habitualmente esquecida e menosprezada pela Medicina. O próprio Ramazzini reconhece no prefácio de seu tratado, que “ninguém que eu saiba pôs o pé nesse campo [doenças dos operários].(...) É, certamente um dever para com a mísera condição de artesãos, cujo labor manual muitas vezes considerado vil e sórdido, é contudo necessário e proporciona comodidades à sociedade humana. (...)”. Com esta sensibilidade e com erudição histórica invejável, Ramazzini entendera que “...os governos bem constituídos têm criado leis para conseguirem um bom regime de trabalho, pelo que é justo que a arte médica se movimente em favor daqueles que a jurisprudência considera com tanta importância, e empenhe-se (...) em cuidar da saúde dos operários, para que possam, com a segurança possível, praticar o ofício a que se destinaram.” |