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Pois bem, demos a palavra ao nosso biografado ilustre: “observei que um dos operários, naquele antro de Caronte, trabalhava açodadamente, ansioso por terminar; apiedado de seu labor impróprio, interroguei-o por que trabalhava tão afanosamente e não agia com menos pressa, para que não se cansasse demasiadamente, com o excessivo esforço. Então, o miserável, levantando a vista e olhando-me desse antro, respondeu: ‘ninguém que não tenha experimentado poderá imaginar quanto custaria permanecer neste lugar durante mais de quatro horas, pois ficaria cego’. Depois que ele saiu da cloaca, examinei seus olhos com atenção e os notei bastante inflamados e enevoados; em seguida procurei saber que remédio os cloaqueiros usavam para essas afecções, o qual respondeu-me que usaria o único remédio, que era ir imediatamente para casa, fechar-se em quarto escuro, permanecendo até o dia seguinte, e banhando constantemente os olhos com água morna, como único meio de aliviar a dor dos olhos. Perguntei-lhe ainda se sofria de algum ardor na garganta e de certa dificuldade para respirar, se doía a cabeça enquanto aquele aquele odor irritava as narinas, e se sentia náuseas. ‘Nada disso, respondeu ele, somente os olhos são atacados e se quizesse prosseguir neste trabalho muito tempo, sem demora perderia a vista, como tem acontecido aos outros’. Assim, atendendo-me, cobriu os olhos com as mãos e seguiu para casa. Depois observei muitos operários dessa classe, quase cegos ou cegos completamente, mendigando pela cidade....”
Como bem destaca o Dr. Bernardo Bedrikow, em seu interessante estudo sobre a vida e obra de Ramazzini, “a imagem do limpador de fossas não mais abandonou o espírito curioso daquele médico (...). Interessado também pelas artes e pela mecânica, visitou as pobres oficinas do tempo, e logo ficou impressionado com as condições miseráveis dos trabalhadores.”
Assim, afirmaria mais tarde Ramazzini: “enquanto exercia minha profissão de médico, fiz freqüentes observações, pelo que resolví, no limite de minhas forças, escrever um tratado sobre as doenças dos operários”. Reconhecia, porém, que “é evidente que em uma só cidade, em uma só região, não se exercitam todas as artes, e, de acordo com os diferentes lugares, são também diversos os ofícios que podem ocasionar várias doenças.” Pedia, para tanto, a indulgência dos leitores, que certamente o indulgenciaram...
Em 1700, ano da publicação em Módena, da primeira edição do De Morbis Artificum Diatriba, o Senado da República de Veneza ofereceu a Ramazzini a segunda Cadeira de Medicina Teórica, na Universidade de Pádua. Esta Universidade, fundada em 1222, já gozava de elevado prestígio na Europa, tendo se tornado, então, um dos maiores centros de ensino médico no mundo. Após 29 anos em Módena, 19 dos quais como Professor de Medicina, Ramazzini considerou o convite como um coroamento de sua carreira, e uma manifestação de consideração e estima, vindo a aceitá-lo, já com seus 67 anos. O contrato oferecido era de seis anos, renováveis.
Com efeito, em 12 de dezembro de 1700, Ramazzini pronunciava sua aula inaugural naquela tradicional e antiga Universidade, tendo escolhido como tema, o futuro da Medicina no novo século (XVIII), à luz dos desenvolvimentos ocorridos no século XVII. Poucos no mundo poderiam faze-lo com tão amplo horizonte filosófico, artístico, histórico, literário e médico, como Ramazzini, na plenitude de uma vida tão rica e diversificada. |
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